sexta-feira, novembro 25, 2005

Limiar


Bastou que o acaso ocorresse,
a mente abrisse
e as idéias escorressem pelas paredes internas do crânio rumo ao nada.
Tava feita a merda toda...
ressurge a saudade que mata.

Caiu então
em um buraco negro e lamacento
que se abriu em algum canto do cosmos.
Roubou o fruto da arvore proibida e devorou sozinho,
Bebeu o veneno que completava o cálice
como se fosse um bom vinho
Não viu anjos
E por todos os demônios
Mais uma vez se viu cercado de vazio

Ardido como pimenta
Teórico da conspiração perfeita
Submundo feio da própria existência
Que não se ama
Não se permite
nem deixa
Que nada e ninguém atrapalhe suas rotas de fuga.

Digníssimo filho de Deus
Ilustre cidadão
Profissional competente
Amante hipócrita
Cafajeste
contente
Prisioneiro das masmorras de uma rainha má
Deseja ser desejado por todo desejo que há

Vezes violento
Outrora sedento
Se contenta com pouco
Quase nada
Um olhar
Um carinho
No limiar da mente que vaga
se joga de cabeça no vento.

Preso eternamente
E vagando livre por ai
Entre o céu e o inferno
Ri de tudo e chora por nada
Tudo que toca morre ou se estraga
Amaldiçoado seja ele
Por que para mim já não sobrou mais nada.
Foto: Asya Scheen

sábado, novembro 19, 2005

O Deus Serpente - Parte III - R E V E L A T I O N S


Não sei se devido ao cansaço que se abatia sobre meu corpo acabei adormecendo na escuridão do deserto enquanto contemplava as estrelas ou se de fato eu vivenciei todas as circunstâncias que a seguir descrevo. Não posso prova-las cientificamente como exigiria uma junta de especialistas e devo isso ao desespero de minha fuga, caso tenha sido real, pois perdi em algum lugar em meio aquelas ruínas a prova que satisfaria tanto uma comunidade científica quanto a minha própria dúvida quanto a veracidade dos fatos e por isso lamentarei o resto de minha vida.

Se foi um delírio um sonho ou a realidade o que de fato aconteceu é que enquanto observava o céu e as estrelas, pude sentir sob os meus cotovelos apoiados na areia pequenos tremores de impacto. Um após o outro em uma cadência lenta e incessante, cada vez mais próximos. O silêncio de repente tomou conta do vale, nenhum rato, nem coruja, nada se ouvia. Mesmo o eco provocado pelo vento tinha cessado, foi quando ouvi o relinchar de um cavalo e o barulho de seus cascos sobre uma pedra em algum lugar não muito distante.
O pavor me percorreu a espinha de uma forma tão surpreendente que não permitia que eu mexesse um único músculo. Fiquei ouvindo o som cada vez mais próximo, parecia vir de todas as direções...
Se aproximando,
Próximo,
Muito próximo,
Até que parou, talvez a menos de 2 metros a minha frente. Eu simplesmente não conseguia me mexer. Sabia que havia alguma coisa ali, mas eu não podia mais ouvi-la ou muito menos vê-la. O mundo parecia Ter se fechado sobre mim, a escuridão tornou-se ainda mais opressora, tentei gritar mas não consegui. Senti algo apertar o meu peito contra o chão, não tinha forças para reprimir aquilo, eu simplesmente não comandava mais o meu corpo... Um sussurro rompeu o silêncio perpétuo e o que eu escutei, hoje consigo traduzir somente desta forma.
“Eri’ a tam ria’m S´lam er ria’m”

(continua)

quarta-feira, novembro 16, 2005

Provoco


Sim!!
Eu quero!
Posso e espero provocar teu signo sob o luar.
Insinuar versos sem fim em sussurros baixos
provocar euforia de sentimentos sublimados
esperando em algum lugar secreto o decreto
para serem libertados.

Na ânsia do que é belo eu provoco mesmo
Sendo pleno e sincero como jamais
Ver tuas linhas sendo derramadas espero
Na vertigem do acaso da ação de legitima defesa
Espancando o teclado

Verso,
Prosa
Dueto
É tudo editado
Monto segredos para serem desvendados
Crio impérios para serem destruídos
Provoco, eu preciso disso.

E na solidão do meu eu sincero
Eu provoco.
Marretando deste lado da tela eu espero
A distancia entre nós reduzir
...Me dê a honra
Me provoca...
Vem.

terça-feira, novembro 15, 2005

Chega

As vezes digo não quando quero dizer sim. As vezes digo sim quando quero dizer não.
As vezes falo demais, outras simplesmente calo.
A madrugada passou... em branco
Matou o que não nasceu.
Parei com as tentativas inúteis
Chega... já deu...

domingo, novembro 13, 2005

Subindo

1. não acordei bem.
2. um sonho ruim.
3. muito ruim.
4. domingo de sol.
5. o que sobrou pra mim?
6. Fazer malabares?
7. viro a direita.
8. andar a esmo pela cidade.
9. pensar e pensar.
10. Calor do inferno.
11. Água morna na garrafa de plástico.
12. já foi de coca – cola.
13. Peso nos pés.
14. Viro a direita.
15. Mãos cansadas demais.
16. Frases lançadas no corrimão.
17. Pensamento fugaz.
18. Eu me sentindo um errante.
19. Fração de segundo.
20. Só me entendo por que é novembro.
21. Viro a direita.
22. Mais um lance.
23. Vários lances.
24. As panturrilhas estão ardendo.
25. Acido lático produzido aos borbotões.
26. Eu alucinando.
27. Ganhando uma puta experiência.
28. Viro a direita.
29. E a ausência?
30. E as pessoas queridas?
31. E as noites vazias?
32. E meus olhos vermelhos?
33. E minha imagem no espelho?
34. Avesso do que eu sou.
35. Viro a direita.
36. Metade de mim esquecida.
37. Acho que já fui mais feliz sim
38. Voltar para o saco do meu pai eu queria.
39. Eu deveria.
40. Ter estudado mais
41. Ter me empenhado mais.
42. Viro a direita.
43. Mestrado, doutorado.
44. Pós-doutorado
45. Premio Nobel conquistado
46. Salvado mais gente
47. Mas agora não dá mais.
48. To doente da alma.
49. Viro a Direita.
50. Isso sempre passa.
51. Não é efeito de maconha ou cachaça.
52. E tristeza pura e simplesmente.
53. Inferno astral dormente.
54. Abre-se em fúria total.
55. Sinto-me mal.
56. Viro a Direita.
57. Vomito os sonhos.
58. Minha alma exponho.
59. Sozinho choro.
60. Escorpião.
61. Sopro de vida.
62. Poeira de estrela.
63.Viro a direita.
64. No fim da jornada há gloria?
65. Chego na porta.
66. Degraus.


By: Leandro Cruz

sábado, novembro 12, 2005

O Deus Serpente - Parte II - N I G H T F A L L

Andei e andei por entre as ruínas, cruzei sítios arqueológicos há muito abandonados e por outros que tinham bandeiras que provavelmente demarcavam futuras escavações. Olhava para traz vez ou outra para estabelecer a distância que eu já havia percorrido desde o início de minha jornada e para minha surpresa havia caminhado bem mais do que eu imaginava. Via agora somente o topo da cabeça da esfinge de Queops milhas atras, como que vigiando minha retaguarda, as sombras sobre o vale se perpetuavam, o calor do dia cedia a uma brisa cada vez mais fresca que corria por entre as ruínas. O anoitecer vinha chegando e o que me traria?

Seguia pela trilha que eu mesmo havia determinado atravessando ruínas em direção a uma grande pirâmide que despontava no horizonte. Meus olhos atentos corriam pelos blocos milenares de arenito buscando por pistas de qualquer tipo que me indicassem a revelação a exemplo do que havia me ocorrido antes. Mas nada sobrenatural acontecerá, nenhum hieróglifo antigo se manifestará como anteriormente eu não decifrava nenhuma outra frase ou sequer palavra. Um cansaço repentino se abateu sobre minhas pernas, havia caminhado o dia inteiro e meu estômago começava a reclamar que não receberá nada para preenche-lo. Atravessei mais uma ruína e sentei-me um pouco para descansar e observar o por do sol, não é sempre que se tem uma oportunidade destas e eu não queria desperdiça-la.
Lá se ia o astro rei, chamado pelos egípcios de Rá, Osiris ou Amon. Lamentei ter perdido a camera fotográfica poderia tirar algumas fotos maravilhosas deste momento mas terei de me contentar de guarda-los na lembrança. O sol descendo em um dourado espetacular e desaparecendo sob as dunas do deserto o véu da noite logo cobriu o vale e algumas estrelas começaram a despontar.
“Levanta e continua procurando” disse para mim mesmo: “faça valer a pena essa empreitada”. Cheguei a uma ruína maior do que as outras, ou pelo menos mais conservada pelo tempo, comecei a contorna-la e para a minha surpresa do outro lado havia o que sobrará de uma avenida, um caminho livre de construções que se dirigia para uma grande pirâmide. Seria o meu caminho, ainda mais agora que a luz do dia se extinguia rapidamente e logo estaria tão escuro que eu não poderia mais contar com os meus olhos.
Percebi então que sem os meus olhos a busca seria inútil. Por todos os céus, como eu havia sido burro, eu não enxergo no escuro e também não tenho nenhuma lanterna ou tocha! Como vou fazer para encontrar o templo? O meu lado racional ria muito e repetia constantemente: “Eu disse para você voltar, mas você não me escuta”. E onde estava agora aquele pensamento sedutor que me trouxe até aqui? Não ouvia o som de sua voz dentro da minha cabeça, havia sido ludibriado por uma fantasia de aventura, como fui idiota. O que me restava agora era um medo crescente de passar a noite no escuro no meio do vale dos reis e ser atacado por algum bicho faminto. Precisava portanto aproveitar a penumbra que ainda havia para procurar um lugar para me esconder e passar a noite. Quando eu contar o estupidez que eu fiz vão rir de mim lá em casa o resto da vida.
Andei por mais alguns minutos procurando um lugar seguro, mas nenhum lugar parecia ser seguro naquele lugar abandonado. Meu coração acelerava a cada passo que eu dava e o medo crescia. O vento havia parado e um ar gélido agora cobria a antiga avenida por onde eu passava. Era possível agora ouvir sons antes imperceptíveis, talvez o fato de eu estar perdendo o sentido da visão para a escuridão da noite cada vez mais ameaçadora estar sendo compensado pelos meus ouvidos.
Sim, eu conseguia ouvir vários sons distintos e além de conseguir classifica-los em uma lista mental, calculava aproximadamente a distancia em que estavam ocorrendo. Ouvia com maior freqüência o ruído de ratos correndo por entre as ruínas, julgava serem ratos bastante grandes pelo barulho que faziam. Sua passagem vez ou outra deslocava alguns pequenos pedregulhos que retumbavam no interior das ruínas causando um ou outro pequeno eco. Escutava também o piar incessante de algumas corujas que certamente espreitavam as saborosas ratazanas que corriam ao redor.
Me sentia mais confiante depois de ter notado o considerável aumento de minha capacidade auditiva, a noite enfim havia coberto todo o vale e uma escuridão sem fim me cercava. Com as mão esticadas para frente do meu corpo eu tateava a noite e as trevas quase sólidas que me envolviam. Um passo de cada vez até que eu toque em alguma pedra ou parede. Minha última lembrança do que havia vislumbrado antes do sol se por me dizia que eu não deveria estar muito longe do final daquela avenida e portanto não deveria estar longe da pirâmide, talvez um quinhentos metros, não mais do que isso e se eu seguisse reto logo estaria colocando minhas mão nela.
A temperatura caíra depois que o sol se pôs, o suficiente para que agora eu lamentasse não ter trazido uma jaqueta mais grossa do que aquela que havia passado o dia amarrada em minha cintura e que agora me aquecia um pouco. Se eu sobrevivesse a isto, eu dizia para mim mesmo, sobreviveria em qualquer situação.
Um passo após o outro dentro da escuridão sem fim, é difícil calcular o tempo em situações como estas quando os minutos parecem horas. Presumo que deva ter se passado pelo menos uma hora sem que eu esbarrasse em coisa alguma além de algumas colunas de arenito das quais desviei cautelosamente. Significava então que haviam duas possibilidades, a primeira é que a avenida que eu seguia tivesse em algum ponto alguma ruína em seu centro que eu não havia enxergado durante o dia e a segunda e mais provável era que eu tivesse em algum momento naquela escuridão eterna perdido a direção da reta que eu deveria seguir para atingir a pirâmide e estivesse agora andando a esmo novamente por entre as ruínas do vale dos reis. Nenhuma das duas alternativas me agradava por completo e uma vez mais a sensação de pavor tomava conta do meu coração.
Cansado de caminhar e com os braços doendo por mante-los erguidos frente ao meu corpo resolvi sentar na areia e descansar um pouco. Continuava a ouvir os ruídos do vale e sua serenata sinistra de ecos na escuridão da noite. Respirei o ar frio e apoiando os cotovelos na areia olhei para o céu procurando por estrelas ou pela lua. Um bordado de lindas estrela pairava sobre minha cabeça, uma pena eu não conhecer astronomia para tentar me guiar por elas. Fiquei admirando as constelações enquanto pensava no que fazer.
(continua)
Leandro Ferreira

sexta-feira, novembro 11, 2005

Cicatrizes

As feridas, as mesmas feridas que já sangraram tanto um dia, hoje se tornaram antigas cicatrizes. Marcas na pele que o tempo não irá esquecer. Vão envelhecer junto com ele até o ultimo dos seus dias. E quando a pele estiver bem velha, enrugada e flácida elas estarão olhando para ele e fazendo-o lembrar de porque elas estão lá.

O espelho refletia o velho nu que se olhava. Analisava meticulosamente cada palmo do seu corpo, cada sinal, cada marca. Histórias de 80 anos de batalha. Da mais dura e sangrenta até a rotina sufocante de seus dias atuais. Velhice maldita! Lentidão de movimentos e fragilidade prescrita em uma bula que parece estar colada no rosto de todo e qualquer velho.

Ele odiava ser velho! Odiava ver seu corpo nu na frente do espelho. Aquilo que fora antes motivo de tantos elogios das garotas da praia do Cassino, hoje eram rugas sobrepostas em todos os sentidos.

Quatro guerras havia travado e o espelho refletia cada uma delas, marcadas no seu corpo que um dia já foi menino. Empunhou tantas armas contra os inimigos que lhe apontavam como inimigos. De algumas guerras voltou herói, de outras vencido. Mas nunca lhe faltaram histórias e lembranças sobre o que havia vivido.

Queria mais uma vez sentir o calor sufocante da batalha. O barulho ensurdecedor da metralhadora abrindo fogo de dentro da trincheira. Queria ouvir o motor e as esteiras dos tanques pesados cruzando o campo. Ele que tinha sido um homem de armas agora só restava o pranto e a bengala de madeira que tinha incrustada no topo o emblema da infantaria.

O velho caminhava todas as manhas pela beira da praia somente para praguejar com os surfistas “vagabundos sem coisa nenhuma na cabeça” ele dizia. Mas na verdade, no fundo do seu coração sabia, que aquele praguejar, vinha de sua inveja daqueles rapazes que se movimentavam livres e ágeis por entre as cristas das ondas no mar. E ele, tão velho, se perguntava que preço pagaria para mais uma vez desfrutar de sua juventude.

“Maldita seja a velhice”, muitas vezes durante o dia repetia para si. Ao levantar da cama, as vezes três, quatro vezes durante a noite para ir ao banheiro. Revoltava-se por ser só um velho ao ver as insubordinações do governo, e o descaso com a nação. Queria pegar nas armas, queria mais uma vez revolução. Mas estava velho e a velhice mata. Preferia mil vezes ter morrido em algum campo de batalha... de bala.

Sua rabugice havia afastado todos de quem gostava. Sua mulher, que Deus a tenha, pois foi uma santa criatura, e a única que o suportou até o final. Talvez o tenha feito por pura falta de opção ou por que talvez fosse a única que o conhecesse profundamente e soubesse dos seus mais íntimos segredos. Ou quem sabe ela o a aceitasse assim como ele era, e por que não?.

Os filhos, dois rapazes hoje já formados, um em engenharia e outro em economia foram embora de casa cedo. Não queriam seguir a mesma carreira do pai. Academia militar para eles nem pensar. “Covardes! É o que vocês são! Meus próprios filhos!” o velho dizia.

Era quase um eremita. Vivia com meia dúzia de gatos que chamava de soldados. Praticamente se escondia em uma das muitas ruas do balneário e provavelmente quando morresse os vizinhos só notariam pelo mal cheiro que a casa começaria a exalar depois de alguns dias.

E foi justamente assim que aconteceu. Depois de muitos dias sem ver movimento na casa. O filho caçula de um dos vizinhos resolveu pular no pátio do velho para buscar a bola que havia sido chutada do campinho. Conta o menino que encontrou a porta da cozinha aberta e lá dentro viu sentado numa cadeira apoiado sobre a mesa e cercado pelos gatos o velho com o rosto caído, olhos abertos, esbugalhados e um sinistro sorriso.

Afinal a morte o havia encontrado.

O guri informou seus pais que por sua vez informaram a policia sobre o caso. Meia hora depois todos chegaram. A ambulância, um inspetor de civil e um soldado. Que sem cerimonial nenhum colocou a porta da casa do velho abaixo e entrou antes de todos os outros.

Quinze minutos depois o corpo do velho foi retirado já devidamente coberto por um pano. Ouvi dizer que já há dias ele tinha passado dessa para melhor e que seus gatos com fome, haviam roído seus dedos e outras cartilagens do corpo. Pobre coitado!

Mas o mais interessante da hístória toda, foi o comentário que aquele soldado fez ao telefone, com alguém que eu nunca saberei o nome e a patente. Afastado do grupo de curiosos que se formava na porta da casa ele disse baixo: “O general está morto... caso encerrado!

Leandro Ferreira

quarta-feira, novembro 09, 2005

Entre Nós


O que ele é afinal? Um anjo do bem ou um demônio do mal? Na dúvida da revelação de sua natureza permanece assim mesmo com está, na forma mortal.

Ocilando entre o sagrado e o profano, dia após dia vai vivendo. Andarilho de um mundo selvagem que no vazio de sua própria existência gerou, pariu e criou esse rebento que acabou por aprender que não é bom se revelar demais a ninguém.

Só mais um, incógnito entre a multidão de almas que trilha para um futuro obscuro. Ele não fala demais para não chamar para si a atenção. Não por vergonha ou timidez, mas para manter a aparente sensatez que disfarça tão bem os verdadeiros motivos de sua presença aqui.

Realoca as lembranças do passado distante enquanto pisa determinado no presente, vagando mundo afora e sempre conspirando com o futuro... ele segue em frente.

Passa e vai embora...

O que ele foi afinal? Um anjo do bem ou um demônio do mal? Na dúvida da revelação de sua natureza permaneceu mesmo com estava... na forma mortal.

By: Leandro Ferreira
Imagem: Diego Pale

terça-feira, novembro 08, 2005

O Deus Serpente - Parte I - I N T R O




Milênios se passaram desde a criação da terra...

E as areias do deserto já rolaram em todas as direções. A paisagem de ontem não será a de amanha e um novo deserto descobrimos ao amanhecer de cada dia. Nossa jornada começou na antiga cidade de Tebas, mas onde irá nos levar? O nosso guia diz que ao fabuloso vale dos reis, mundo dos mortos, cemitério dos faraós. Lá em algum lugar eu sabia que encontraria a razão de minha viagem até este lado do mundo. Sabia que encontraria o templo de Seth.
De todos os deuses egipcios, Seth, sempre foi o que mais me fascinou. considerado o deus negro da morte, da noite e da vingança. Assassino de seu irmão, Horus, o deus falcão. Banido por toda a eternidade para as trevas onde espera pacientemente a hora de levantar-se e tomar o que lhe foi tirado.
Analisado por outro prisma, vejo Seth um símbolo de paciência, fortitude e potência controlada. Paciência por saber esperar o momento certo para o golpe que deverá ser mortal, fortitude por sua adaptação ao mais hostil dos ambientes que são as trevas perpétuas e potência porque quando desfechar seu golpe, será letal para todos os seus inimigos e não permanecerá ninguém entre ele e o trono do mundo.
Sim, desde menino ansiei por este momento sem saber ao certo porque. Vi quando a Esfinge de Queops começou a se destacar no horizonte de uma manha que prometia ser quente. E não pude conter o calafrio em minha alma quando nosso guia exclamou que era a Esfinge que marcava a chegada ao Vale dos Reis.
Enquanto os turistas corriam para as bancas de suvenier e para o formoso monumento com as máquinas fotográficas em punho subi em uma pedra e olhei pela primeira vez para o Vale. Lembrei da frase de Napoleão Bonaparte a seus soldados “Do topo destas pirâmides, 40 séculos vos contemplam”, não há como não parar por um instante e imaginar a quantidade de povos que atravessaram este vale, alguns temerosos de seus segredos, outros subestimando o mistério que o cerca. Saquearam, pilharam e destruíram por séculos e séculos as obras das antigas dinastias. Onde, dentre todas as magnificas construções que meus olhos avistavam estaria aquela que eu procurava? Teria sido destruído por povos bárbaros milênios antes de meu nascimento?
Era preciso procurar e não disponho de todo o tempo do mundo, por isso abandonei a excursão e seu guia, acreditava naquele momento sobre aquela pedra, que bastava que eu me entregasse ao instinto para encontrar Seth e sua morada.

O escaldante sol do deserto me indicou a direção, o templo de Seth não deveria estar exposto ao astro sol, muito pelo contrário, deveria sim estar em um local onde seu inimigo luz não o tocasse em nenhum momento e por isso cruzei o vale a procura das sombras. Caminhei como um fantasma por entre pirâmides, tumbas e escavações, obstinado, desorientado em pensamentos que não eram meus. Uma vez que por segundo recuperei a consciência e o controle de minhas próprias pernas, me vi oprimido na imensidão do vale, havia perdido a direção e o sentido de tempo. Meu relógio, minha bolsa e minha máquina fotográfica haviam como por encanto desaparecido. Somente meu cantil permanecia preso no cinturão. Eu não via nem ouvia nenhum dos outros turistas, estava sozinho entre colunas de arenito.
A terra havia girado em seu eterno circulo, e o sol, ainda forte e alto lançava agora sombras em outras direções, o vale parecia diferente, sinistro. Eu era para estar preocupado pensei, estou sozinho em algum lugar do vale dos reis, perdido de uma excursão que não sei ao certo que horas deve partir, mas eu não estava. Havia perdido minha bolsa, meu relógio e minha máquina fotográfica, mas isso não me importava. E se a noite caísse e eu não encontrasse o caminho de volta? Isso também não me assustava. Uma estranha força me mantinha ali, entre colunas, calmo, quieto. Corri os olhos pelas construções que me cercavam, as colunas repletas de hieróglifos desgastados pelas areias e pelo tempo me encheram os olhos, sim, de alguma forma eu podia decifra-los, compreender o que me transmitiam. Li então:
“As trevas cercam a luz eternamente
eternamente espera pela hora em que
ele atenderá seu chamado.
E então Seth virá montado em seu magnifico reptil S´lam er ria’m...”

E como por encanto as palavras outra vez se tornaram hieróglifos desgastados incompreensíveis, indecifráveis para um ocidental sem o mínimo de estudo em línguas antigas. Então o que havia sido aquilo? Uma visão? Minha mente ansiosa por encontrar o lugar que habitava meus sonhos? Os efeitos do astro sol o dia inteiro sobre minha cabeça? Seria a sede? Sim, eu também a sentia. Levei a mão ao cantil e bebi um breve gole para voltar a consciência e decidir o que fazer. O ser racional dentro de mim implorava que eu retornasse por onde tinha vindo, que procurasse as setas e indicações colocadas em algum lugar para turistas incautos como eu, que tivessem antes se aventurado por entre as ruínas. Porem, insurgiu em mim uma parte que eu sequer conhecia, que dizia que eu devia esquecer a excursão o guia e qualquer tipo de retorno ao mundo civilizado, que meu lugar era aquele ali.

“Que absurdo!” dizia meu lado racional: “Volte seu tolo, volte enquanto ainda há tempo, a noite começará a cair em breve e você vai ficar sozinho no meio do deserto. Não tem água o suficiente, nem comida alguma e muito menos roupas adequadas para suportar uma noite neste lugar, comece a gritar por socorro antes que seja tarde demais.”
Parecia uma decisão fácil mas outra vez o homem que eu desconhecia me mim aclamava em um pensamento sedutor: “Você pode gritar por socorro, todo fraco grita por socorro, pode voltar para o seu mundo como todos os outros voltam quando o passeio termina e voltar para o ocidente com um monte de fotografias deste vale, fotos que não dirão nada além do que todos vêem. No entanto você tem agora uma chance única de permanecer no vale por uma noite inteira, suportar as privações que a vida moderna oferece e finalmente encontrar o que você veio buscar, sim, ele está em algum lugar por aqui lhe esperando e é nas trevas que ele se revela, não sob a luz de Rá.”
Subi em uma rocha e disse então para o vale em voz alta, como quem procura uma autorização e não sabe para quem pedir, queria escutar o eco de minha própria voz para ter certeza de que não estava sonhando:

“Para que vim a este lugar senão para encontrar o templo de Seth? Eis que não sairei daqui até completar minha busca, se minha razão quiser pegar o ônibus de volta para Tebas que vá sozinha, tomei minha decisão, ficarei esta noite.”
Como resposta o eco trouxe uma suave brisa, desci da rocha e continue caminhando rumo a lugar nenhum esperando a noite e a revelação que somente ela podia trazer.
(continua)
By: Leandro Ferreira

domingo, novembro 06, 2005

Tempestade...

O trovão que se anuncia no horizonte espanta os poucos pássaros que ainda permanecem na sacada. A chuva será forte como lagrimas outrora derramadas. No breve silêncio depois do temeroso rugido o céu e rasgado por um relâmpago que num piscar de olhos não esta mais lá. Deixo os pensamentos todos para a chuva molhar... não me importo só observo a tempestade passar.

Leandro Ferreira

sábado, novembro 05, 2005

Carta ao George

Guarapuava 5 de Novembro do ano do Jubileu de 2005

Sei lá George, eu tava te vendo no noticiário da tv agora a pouco. Na reunião da Cúpula das Américas. A coisa ta meio feia por ai ao que me parece. O povo não te recebeu muito bem né? Por que será George? Por que será que eles não te receberam bem? Alias, quando e onde foi a ultima vez que te receberam bem George? Quando foi a ultima vez que tu, representando quem representas fostes bem vindo sem sequer um sorriso cínico ou um sussurro maldoso pelas costas. Quando foi mesmo George? Não me lembro.

Talvez tenha sido na faculdade de Yale onde tu estudastes. O que mesmo tu estudaste? Nem me lembro! Naquelas madrugadas frias George em que esperavas na neve sob o campanário de pedra por um sinal por ti conhecido.

Não George, fica tranqüilo, eu não vou revelar o sinal da irmandade até por que não sei mas foi lá George eu sei. Tu sabes muito bem por que tu entraste. Sabe sim George. Filho de quem és tinhas um futuro promissor pela frente. Por influencia do teu pai tu fostes escolhido. Fala sério George, 89 de QI é muito pouco para a função que tu estas exercendo. Uma sociedade tão seleta onde onde os profanos calculam haverem somente de 350 a 400 membros existentes e espalhados por todo o mundo. Acho que só depois que já era tarde demais é que eles viram a grande cagada que fizeram e se deram conta que tu só serias mantido por que podias ser manipulado. Teu pai te manipula, eles te manipulam. Quem mais te manipula George?

Não pensa não que é por que tu estas “a frente” de uma grande nação tu é tão diferente de muitos desses demais infelizes que estavam sentados ao teu lado nas filmagens que eu vi. De alguma forma todos são manipulados. O que eu não consigo engolir e essa tua pose bancando de arrogante e te tornando cada vez mais odiado por todo o mundo.

Tu não consegues ver isso? Não enxergas que todo o globo te odeia e acaba odiando a tua terra por causa de ti? As pesquisas não mentem George eu vi isso hoje também. Teu índice de aprovação nunca foi tão baixo 67% do entrevistados dentro da tua própria pátria (se é que sabes o que é pátria) não concordam com a forma como tu estas governando isso ai. E assim mesmo segues fazendo as mesmas coisas. Não mudas!! Putz George, são 89 de QI e não 31, já dá pra perceber algumas coisas.

Vê se para um pouco pra pensar. Olha só o jeito que tu vai ser lembrado na história. Dá teu jeito. Me diz uma coisa, as pessoas querem simplesmente pisar na tua cara. Queimam bonecos e bandeiras da tua terra, picham muros e monumentos com frases de ódio à tua pessoa. Como é que tu fazes para dormir a noite? Vai me dizer que tu rezas antes de dormir. Para quem? O que tu andou pedindo George? Tu ainda trepa George? Sei não. As vezes parece que ta te faltando uma boa noite de sexo.

Olha, sinceramente falando. Não é nada pessoal, mas eu também não vou muito com a tua cara George, e de uns tempos para cá, cada vez menos. E o que é pior, tu ta me fazendo pegar nojo dessa terra ai, realmente linda e cheia de oportunidades. Assim como nós tupiniquins, vocês vivem uma democracia (não somos tão diferentes). Logo, tu és o representante do povo. Será que realmente refletes teu povo? Serão todos que nem tu? Temo pensar assim. Se vocês podem se dar ao direito de tantas coisas, já que são tão poderosos, como por exemplo, achar que nós aqui vivemos em árvores e só escutamos samba e que nossa capital é Buenos Aires. Nos temos o direito, eu tenho o direito, de achar que tu como representante do povo reflete a estupidez máxima da tua nação.

Sei lá George. Ando confuso sobre tudo isso. Talvez se eu fosse muito rico e muito poderoso acabasse também menosprezando tudo a minha volta. Ou porque tenho grana ou porque tenho bombas. E no auge da minha arrogância acabasse assim como tu. Corta essa de guardião da paz mundial George. Onde tu vai tu só tens levado guerra. Olha o Afeganistão, olha o Iraque! Já chega! Leva os rapazes pra casa e te convence que os outros só atacam o teu pais por que em algum momento vocês foram lá meter o bedelho onde não eram chamados.

Ta na hora de parar George. Respira, te apega a Deus entoa uns mantras, relaxa. Eu sei que tu ta vindo ao Brasil mas não precisa me ligar. Ou melhor, nem ousa, não to nem um pouco afim de ouvir esse teu sotaque texano nos meus ouvidos. Para com essas merdas todas e encara que, se não for na troca de idéias, sem essa tua pretensão e arrogância toda, nunca conseguiremos a paz e o desenvolvimento tão sonhado. Eu tinha que te escrever isso, ta dado o recado.

Respeitosamente

Leandro Ferreira

quarta-feira, novembro 02, 2005

Tara


Eles dois brigavam. Brigavam sempre e por qualquer coisa. Se ele dizia noite ela dizia dia. Se ele dizia branco, ela dizia preto, se ela queria salgado ele querida doce, se ela querida viajar ele queria ficar em casa.

O caos nas suas vidas parecia uma variável constante. As brigas e discussões eram abundantes e nos locais menos apropriados. Já foram vistos brigando em supermercados, locadoras, restaurantes, casamentos e até funerais. Todos se perguntam por que continuam juntos? Como conseguem conviver um com o outro daquele jeito? Ele, gritando como um louco e ela jogando nele diversos livros no meio de uma livraria no centro.

O mais incrível é que sempre foram assim. Desde os primeiros dias de namoro, se agredindo e se cutucando mutuamente. No noivado, a festa acabou mais cedo por causa da briga entre os dois e o estrago que fizeram. E mesmo assim continuaram juntos, sempre juntos. Diziam que as vezes ele até batia nela, mas ela nunca prestou queixa de nada.

Quem observa imagina mil coisas a essas alturas do campeonato. Por que não seguem seus caminhos separados e em paz. Eles não querem a paz? Eles estão ocultando algum segredo que não podem se separar? Qual é o elo que os une? Seres de opiniões e atitudes tão distintas.

Um dia portanto durante uma das brigas daquelas feias que ela colocava ele pra fora de casa ou trocava a fechadura encontrei ele num bar tomando um whisk. Como eu o conhecia me sentei a mesa e escutei toda a história. Sim, de fato eles haviam brigado e agora ele estava lá enchendo a cara: “Aquela vagabunda!” dizia ele indignado.

Tomei coragem e então perguntei o que todos os que o conheciam queriam perguntar e não tinham coragem. Perguntei o por que? Por que eles dois continuavam juntos mesmo brigando tanto? E foi depois da terceira dose que ele me contou e foi profético: “depois da tempestade, sempre vem a bonança” disse ele entre goles de Scott. Disse que suportava tudo e suportaria muito mais que isso por que quanto maior a tempestade, maior também a bonança.

Juro que num primeiro momento não entendi e ele deve ter percebido a expressão no meu rosto por que então exclamou: “sexo de reconciliação”. Brigavam o tempo todo por que os dois eram simplesmente viciados em sexo de reconciliação. Aquela trepada maravilhosa que se dá ao perdoar e ser perdoado pela pessoa amada e então unir-se em um só para juntos celebrarem o que há de mais intimo. A resposta para aquele relacionamento aos olhos de todos doentio tinha enfim sua resposta... sexo de reconciliação.

Ele dizia que sabia que naquele momento ela devia estar em casa esbravejando com o atraso dele. Sabia que brigariam novamente e depois fariam um sexo maravilhoso. Sempre foi assim, desde a primeira vez. Tinham transado depois de uma briga. E gostaram tanto da sensação que repetiram a dose mais e mais até não conseguir viver sem. Eles precisavam daquilo, se entendiam e que se foda o mundo que os enxerga. Se pudessem vê-los na cama ficariam pasmos.

E então, ele pagou sua bebida se despediu e foi pra casa. A noite seria longa e muito excitante. Fiquei sozinho na mesa pensando e bebendo. Em silêncio por algum tempo enquanto ruminava tudo que tinha ouvido há pouco tempo. Que coisa maluca, mas, cada um com sua tara.


By: Leandro Ferreira
Foto: Viktor Ivanovski

terça-feira, novembro 01, 2005

Desconstruído


Ele não é único, não é especial, não é um lindo e único floco de neve. É composto do mesmo material orgânico e decadente do resto de todas as coisas. Ele não é poeira de estrelas, não é corajoso, não é herói, não é inteligente, não é resultado, é decadente e abstrato na ignorância tardia de um pensar penoso. Ele não se sente, bem demais, não se sente mal demais, não sabe falar chinês, não sabe do que realmente é capaz, se é capaz, se é ele mesmo ou se nada disso tudo é o que ele é.

Então agora tanto faz.

Olhava a sombra projetada na parede e desconstruía as virtudes e talentos. Na dúvida sobre o que pensar de si buscava sentimentos de dor e tormento e mesmo assim não encontrava um denominador pelo qual pudesse dividir suas dúvidas.

Tantas dúvidas sobre tantos e tantos anos de uma modesta e efêmera existência. Pára um pouquinho e pensa que talvez nunca tenha sido aquilo que realmente gostou, que de todos os seus sonhos bons, nenhum restou. E que a derradeira instância será aquela em que se apresenta desconstruindo toda e qualquer aparência, elegância ou sofisticação de dizer sim, quando na verdade, quer dizer não, de suportar a rotina massacrante e aquilo que outros talvez chamem de Sina...paixão.

Recortou os retalhos de uma vida inteira e colou no grande mural de sua imaginação. Analisou as forças e fraquezas, as ameaças e oportunidades de todas as outras questões que deixou para trás, que evitou ou retardou tomar, para não ferir a outros ou a si mesmo. E logo ele que sempre se julgou tão guerreiro, tanto zelo pelo que falava, decidia, botava a mão. Agora entregue, desconstruindo tudo que fez, para dos mesmos retalhos montar sua vida outra vez e perceber que nada mudou.

Ele não é sincero, não é honesto não tem religião. Ridiculariza outras crenças que não as suas e só não impõe uma verdadeira ditadura por que não tem força na mão. Desconstrói o que restou de alma, desconstrói tudo que sabe, ou acha que sabe, sobre si mesmo. Inverte as escalas, retrocesso primitivo, desejo da insatisfação, eterna insatisfação humana que quer sempre mais, bem mais além do que já tem.

Viu então a própria sombra sumir, deixou a realidade para traz, partiu para outra dimensão, desconstruindo a consciência, enigma da verdadeira existência, virou fim.

Afinal terá a paz que tanto sonhou?

Nenhum de nós nunca vai saber, por que das marcas que deixou no mundo, desconstruío todas, sumiu. Nenhum rastro, nenhuma pista ao esquecimento se abandonou, tanto que não lembro nem do seu nome e se de fato existiu, talvez tenha tudo sido um sonho, um transe, que viagem, vai saber o que realmente aconteceu.



Leandro Ferreira