terça-feira, novembro 01, 2005

Desconstruído


Ele não é único, não é especial, não é um lindo e único floco de neve. É composto do mesmo material orgânico e decadente do resto de todas as coisas. Ele não é poeira de estrelas, não é corajoso, não é herói, não é inteligente, não é resultado, é decadente e abstrato na ignorância tardia de um pensar penoso. Ele não se sente, bem demais, não se sente mal demais, não sabe falar chinês, não sabe do que realmente é capaz, se é capaz, se é ele mesmo ou se nada disso tudo é o que ele é.

Então agora tanto faz.

Olhava a sombra projetada na parede e desconstruía as virtudes e talentos. Na dúvida sobre o que pensar de si buscava sentimentos de dor e tormento e mesmo assim não encontrava um denominador pelo qual pudesse dividir suas dúvidas.

Tantas dúvidas sobre tantos e tantos anos de uma modesta e efêmera existência. Pára um pouquinho e pensa que talvez nunca tenha sido aquilo que realmente gostou, que de todos os seus sonhos bons, nenhum restou. E que a derradeira instância será aquela em que se apresenta desconstruindo toda e qualquer aparência, elegância ou sofisticação de dizer sim, quando na verdade, quer dizer não, de suportar a rotina massacrante e aquilo que outros talvez chamem de Sina...paixão.

Recortou os retalhos de uma vida inteira e colou no grande mural de sua imaginação. Analisou as forças e fraquezas, as ameaças e oportunidades de todas as outras questões que deixou para trás, que evitou ou retardou tomar, para não ferir a outros ou a si mesmo. E logo ele que sempre se julgou tão guerreiro, tanto zelo pelo que falava, decidia, botava a mão. Agora entregue, desconstruindo tudo que fez, para dos mesmos retalhos montar sua vida outra vez e perceber que nada mudou.

Ele não é sincero, não é honesto não tem religião. Ridiculariza outras crenças que não as suas e só não impõe uma verdadeira ditadura por que não tem força na mão. Desconstrói o que restou de alma, desconstrói tudo que sabe, ou acha que sabe, sobre si mesmo. Inverte as escalas, retrocesso primitivo, desejo da insatisfação, eterna insatisfação humana que quer sempre mais, bem mais além do que já tem.

Viu então a própria sombra sumir, deixou a realidade para traz, partiu para outra dimensão, desconstruindo a consciência, enigma da verdadeira existência, virou fim.

Afinal terá a paz que tanto sonhou?

Nenhum de nós nunca vai saber, por que das marcas que deixou no mundo, desconstruío todas, sumiu. Nenhum rastro, nenhuma pista ao esquecimento se abandonou, tanto que não lembro nem do seu nome e se de fato existiu, talvez tenha tudo sido um sonho, um transe, que viagem, vai saber o que realmente aconteceu.



Leandro Ferreira

2 Comments:

Blogger Nina said...

Gosto do seu estilo de escrever. Quase não vejo blogs em portugês e vi o seu ao acaso. Bom achado, escreve bem. Bjss

7:30 PM  
Blogger Leandro Cruz said...

Valeu Ella. Seja bem vinda aos meus delirios!!

4:31 PM  

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