Esconde – Esconde
Entrou no bar e olhou ao redor. Mil olhos brilhavam entre as luzes e a fumaça. Cigarros, suor, cheiro a bebida invadiram seu nariz. Noitada, e das boas, era o que tinha rolado naquele lugar.
Sem prestar muito atenção no contexto da cena seguiu até o bar: “deseja beber alguma coisa” perguntou o garçom. “sim”, disse ela com sua voz roca enquanto procurava na sua bolsa por um cigarro: “Quero Whisk... puro”. Havia achado o maço de cigarros com uns cinco ou seis já meio amassados no fundo da bolsa, mas não havia encontrado o maldito isqueiro. Onde poderia ter deixado?
O garçom que lhe trouxe o whisk, ao vê-la com o cigarro entre os dedos, gentilmente ofereceu seu isqueiro. Ela aceitou, fumou e bebeu em silêncio encostada no balcão. Não havia muita gente agora e ela podia finalmente esquadrilhar o salão com o olhar e situar-se no contexto que anteriormente ela se negou a observar.
Um grupo de jovens, provavelmente universitários estava sentado a uma mesa no fundo do bar. Falavam alto uns com os outros e gesticulavam muito. Níveis de testosterona elevados. Num outro canto mais escuro um casal se encontrava aos amassos. A meia luz, entre a fumaça que havia se instaurado no recinto lembrava mais um corpo com duas cabeças que pendiam ora para um lado, ora para outro.
Um rapaz de cabelos longos dançava sozinho em frente as caixas de som. Alguma coisa do Thin Lizzy tava rolando bem alto ainda para a pouca quantidade de gente que ainda estava no bar. Dois bêbados discutiam sobre o resultado de um jogo de futebol na outra ponta do balcão e o garçom, a essas alturas estava encostado em frente a registradora fumando também um cigarro e esperando que aquela meia dúzia de bêbados finalmente acabassem seus drinques e fossem embora.
Ela sentiu então algo que ainda não havia sentido desde que a noite começará. Sentia-se observada por alguém, mas por quem? Pareciam todos tão imersos em seus próprios mundos. Virou lentamente o pescoço para esbarrar seu olhar no dele... O tempo parou, a música sumiu. Ele piscou, ela entendeu, ele levantou, ela pagou o whisk, ele saiu e ela o seguiu.
Mas ao alcançar a brisa da noite fria que não tardaria terminar não o encontrou. A calçada estava vazia. Ele havia sumido pela segunda vez nesta mesma noite. “Ta brincando comigo” diz para si mesma. Sabia quem ele era e sabia o que ele queria. Ela já tinha dito que tudo bem, consentia, tinha tomado a sua decisão e com ele ela iria até o final. Não conseguia entender o por que desse jogo de esconde-esconde. O que ele estava querendo provar?
Catou outro cigarro no fundo da bolsa e saiu a caminhar pela noite. Os saltos de suas botas contra as pedras da calçada ecoavam alto pelas ruas vazias. Era uma noite úmida como tantas outras, caminharia mais umas 15 quadras e estaria finalmente em casa.
Ao chegar na esquina escutou a voz que perguntou: “Tem um cigarro?” antes de se virar para ver, ela já sabia quem era... ele. “Tenho cigarro, mas não tenho fogo” disse ela se virando na direção da voz para não encontrar nada.
“Fogo eu tenho” escutou mais uma vez vindo de suas costas, só que dessa vez não se virou. Sentiu então sua mãos tocarem seus ombros e sua boca se aproximar do seu ouvido: “Esta pronta?” perguntou ele com uma voz macia. “Sim!” respondeu ela com a voz tremula: “Estou!”
...
No escuro do escritório da janela do 27 andar olha em silêncio a cidade aos seus pés. De repente o telefone toca enlouquecido na penumbra da sala. Deixa que toque algumas vezes e então atende: “Alô” diz e escuta uma voz macia do outro lado da linha que lhe diz: “Esta feito”
By: Leandro Ferreira

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