Cicatrizes
O espelho refletia o velho nu que se olhava. Analisava meticulosamente cada palmo do seu corpo, cada sinal, cada marca. Histórias de 80 anos de batalha. Da mais dura e sangrenta até a rotina sufocante de seus dias atuais. Velhice maldita! Lentidão de movimentos e fragilidade prescrita em uma bula que parece estar colada no rosto de todo e qualquer velho.
Ele odiava ser velho! Odiava ver seu corpo nu na frente do espelho. Aquilo que fora antes motivo de tantos elogios das garotas da praia do Cassino, hoje eram rugas sobrepostas em todos os sentidos.
Quatro guerras havia travado e o espelho refletia cada uma delas, marcadas no seu corpo que um dia já foi menino. Empunhou tantas armas contra os inimigos que lhe apontavam como inimigos. De algumas guerras voltou herói, de outras vencido. Mas nunca lhe faltaram histórias e lembranças sobre o que havia vivido.
Queria mais uma vez sentir o calor sufocante da batalha. O barulho ensurdecedor da metralhadora abrindo fogo de dentro da trincheira. Queria ouvir o motor e as esteiras dos tanques pesados cruzando o campo. Ele que tinha sido um homem de armas agora só restava o pranto e a bengala de madeira que tinha incrustada no topo o emblema da infantaria.
O velho caminhava todas as manhas pela beira da praia somente para praguejar com os surfistas “vagabundos sem coisa nenhuma na cabeça” ele dizia. Mas na verdade, no fundo do seu coração sabia, que aquele praguejar, vinha de sua inveja daqueles rapazes que se movimentavam livres e ágeis por entre as cristas das ondas no mar. E ele, tão velho, se perguntava que preço pagaria para mais uma vez desfrutar de sua juventude.
“Maldita seja a velhice”, muitas vezes durante o dia repetia para si. Ao levantar da cama, as vezes três, quatro vezes durante a noite para ir ao banheiro. Revoltava-se por ser só um velho ao ver as insubordinações do governo, e o descaso com a nação. Queria pegar nas armas, queria mais uma vez revolução. Mas estava velho e a velhice mata. Preferia mil vezes ter morrido em algum campo de batalha... de bala.
Sua rabugice havia afastado todos de quem gostava. Sua mulher, que Deus a tenha, pois foi uma santa criatura, e a única que o suportou até o final. Talvez o tenha feito por pura falta de opção ou por que talvez fosse a única que o conhecesse profundamente e soubesse dos seus mais íntimos segredos. Ou quem sabe ela o a aceitasse assim como ele era, e por que não?.
Os filhos, dois rapazes hoje já formados, um em engenharia e outro em economia foram embora de casa cedo. Não queriam seguir a mesma carreira do pai. Academia militar para eles nem pensar. “Covardes! É o que vocês são! Meus próprios filhos!” o velho dizia.
Era quase um eremita. Vivia com meia dúzia de gatos que chamava de soldados. Praticamente se escondia em uma das muitas ruas do balneário e provavelmente quando morresse os vizinhos só notariam pelo mal cheiro que a casa começaria a exalar depois de alguns dias.
E foi justamente assim que aconteceu. Depois de muitos dias sem ver movimento na casa. O filho caçula de um dos vizinhos resolveu pular no pátio do velho para buscar a bola que havia sido chutada do campinho. Conta o menino que encontrou a porta da cozinha aberta e lá dentro viu sentado numa cadeira apoiado sobre a mesa e cercado pelos gatos o velho com o rosto caído, olhos abertos, esbugalhados e um sinistro sorriso.
Afinal a morte o havia encontrado.
O guri informou seus pais que por sua vez informaram a policia sobre o caso. Meia hora depois todos chegaram. A ambulância, um inspetor de civil e um soldado. Que sem cerimonial nenhum colocou a porta da casa do velho abaixo e entrou antes de todos os outros.
Quinze minutos depois o corpo do velho foi retirado já devidamente coberto por um pano. Ouvi dizer que já há dias ele tinha passado dessa para melhor e que seus gatos com fome, haviam roído seus dedos e outras cartilagens do corpo. Pobre coitado!
Mas o mais interessante da hístória toda, foi o comentário que aquele soldado fez ao telefone, com alguém que eu nunca saberei o nome e a patente. Afastado do grupo de curiosos que se formava na porta da casa ele disse baixo: “O general está morto... caso encerrado!
Leandro Ferreira

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