quarta-feira, novembro 02, 2005

Tara


Eles dois brigavam. Brigavam sempre e por qualquer coisa. Se ele dizia noite ela dizia dia. Se ele dizia branco, ela dizia preto, se ela queria salgado ele querida doce, se ela querida viajar ele queria ficar em casa.

O caos nas suas vidas parecia uma variável constante. As brigas e discussões eram abundantes e nos locais menos apropriados. Já foram vistos brigando em supermercados, locadoras, restaurantes, casamentos e até funerais. Todos se perguntam por que continuam juntos? Como conseguem conviver um com o outro daquele jeito? Ele, gritando como um louco e ela jogando nele diversos livros no meio de uma livraria no centro.

O mais incrível é que sempre foram assim. Desde os primeiros dias de namoro, se agredindo e se cutucando mutuamente. No noivado, a festa acabou mais cedo por causa da briga entre os dois e o estrago que fizeram. E mesmo assim continuaram juntos, sempre juntos. Diziam que as vezes ele até batia nela, mas ela nunca prestou queixa de nada.

Quem observa imagina mil coisas a essas alturas do campeonato. Por que não seguem seus caminhos separados e em paz. Eles não querem a paz? Eles estão ocultando algum segredo que não podem se separar? Qual é o elo que os une? Seres de opiniões e atitudes tão distintas.

Um dia portanto durante uma das brigas daquelas feias que ela colocava ele pra fora de casa ou trocava a fechadura encontrei ele num bar tomando um whisk. Como eu o conhecia me sentei a mesa e escutei toda a história. Sim, de fato eles haviam brigado e agora ele estava lá enchendo a cara: “Aquela vagabunda!” dizia ele indignado.

Tomei coragem e então perguntei o que todos os que o conheciam queriam perguntar e não tinham coragem. Perguntei o por que? Por que eles dois continuavam juntos mesmo brigando tanto? E foi depois da terceira dose que ele me contou e foi profético: “depois da tempestade, sempre vem a bonança” disse ele entre goles de Scott. Disse que suportava tudo e suportaria muito mais que isso por que quanto maior a tempestade, maior também a bonança.

Juro que num primeiro momento não entendi e ele deve ter percebido a expressão no meu rosto por que então exclamou: “sexo de reconciliação”. Brigavam o tempo todo por que os dois eram simplesmente viciados em sexo de reconciliação. Aquela trepada maravilhosa que se dá ao perdoar e ser perdoado pela pessoa amada e então unir-se em um só para juntos celebrarem o que há de mais intimo. A resposta para aquele relacionamento aos olhos de todos doentio tinha enfim sua resposta... sexo de reconciliação.

Ele dizia que sabia que naquele momento ela devia estar em casa esbravejando com o atraso dele. Sabia que brigariam novamente e depois fariam um sexo maravilhoso. Sempre foi assim, desde a primeira vez. Tinham transado depois de uma briga. E gostaram tanto da sensação que repetiram a dose mais e mais até não conseguir viver sem. Eles precisavam daquilo, se entendiam e que se foda o mundo que os enxerga. Se pudessem vê-los na cama ficariam pasmos.

E então, ele pagou sua bebida se despediu e foi pra casa. A noite seria longa e muito excitante. Fiquei sozinho na mesa pensando e bebendo. Em silêncio por algum tempo enquanto ruminava tudo que tinha ouvido há pouco tempo. Que coisa maluca, mas, cada um com sua tara.


By: Leandro Ferreira
Foto: Viktor Ivanovski

2 Comments:

Blogger Unknown said...

Tesão!!! Fiquei tarado!!! Quero sexo de reconciliação!!! Falta encontrar com quem se reconcialir... Me diz uma coisa? Pra isso precisa ter brigado com alguém, não é?! Iiih! Fudeu!!!

9:12 PM  
Blogger Leandro Cruz said...

Oras, é óbvio que tem que ter brigado antes. Senão não é sexo de reconciliação!!
É muito bom!!

9:19 PM  

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