terça-feira, novembro 08, 2005

O Deus Serpente - Parte I - I N T R O




Milênios se passaram desde a criação da terra...

E as areias do deserto já rolaram em todas as direções. A paisagem de ontem não será a de amanha e um novo deserto descobrimos ao amanhecer de cada dia. Nossa jornada começou na antiga cidade de Tebas, mas onde irá nos levar? O nosso guia diz que ao fabuloso vale dos reis, mundo dos mortos, cemitério dos faraós. Lá em algum lugar eu sabia que encontraria a razão de minha viagem até este lado do mundo. Sabia que encontraria o templo de Seth.
De todos os deuses egipcios, Seth, sempre foi o que mais me fascinou. considerado o deus negro da morte, da noite e da vingança. Assassino de seu irmão, Horus, o deus falcão. Banido por toda a eternidade para as trevas onde espera pacientemente a hora de levantar-se e tomar o que lhe foi tirado.
Analisado por outro prisma, vejo Seth um símbolo de paciência, fortitude e potência controlada. Paciência por saber esperar o momento certo para o golpe que deverá ser mortal, fortitude por sua adaptação ao mais hostil dos ambientes que são as trevas perpétuas e potência porque quando desfechar seu golpe, será letal para todos os seus inimigos e não permanecerá ninguém entre ele e o trono do mundo.
Sim, desde menino ansiei por este momento sem saber ao certo porque. Vi quando a Esfinge de Queops começou a se destacar no horizonte de uma manha que prometia ser quente. E não pude conter o calafrio em minha alma quando nosso guia exclamou que era a Esfinge que marcava a chegada ao Vale dos Reis.
Enquanto os turistas corriam para as bancas de suvenier e para o formoso monumento com as máquinas fotográficas em punho subi em uma pedra e olhei pela primeira vez para o Vale. Lembrei da frase de Napoleão Bonaparte a seus soldados “Do topo destas pirâmides, 40 séculos vos contemplam”, não há como não parar por um instante e imaginar a quantidade de povos que atravessaram este vale, alguns temerosos de seus segredos, outros subestimando o mistério que o cerca. Saquearam, pilharam e destruíram por séculos e séculos as obras das antigas dinastias. Onde, dentre todas as magnificas construções que meus olhos avistavam estaria aquela que eu procurava? Teria sido destruído por povos bárbaros milênios antes de meu nascimento?
Era preciso procurar e não disponho de todo o tempo do mundo, por isso abandonei a excursão e seu guia, acreditava naquele momento sobre aquela pedra, que bastava que eu me entregasse ao instinto para encontrar Seth e sua morada.

O escaldante sol do deserto me indicou a direção, o templo de Seth não deveria estar exposto ao astro sol, muito pelo contrário, deveria sim estar em um local onde seu inimigo luz não o tocasse em nenhum momento e por isso cruzei o vale a procura das sombras. Caminhei como um fantasma por entre pirâmides, tumbas e escavações, obstinado, desorientado em pensamentos que não eram meus. Uma vez que por segundo recuperei a consciência e o controle de minhas próprias pernas, me vi oprimido na imensidão do vale, havia perdido a direção e o sentido de tempo. Meu relógio, minha bolsa e minha máquina fotográfica haviam como por encanto desaparecido. Somente meu cantil permanecia preso no cinturão. Eu não via nem ouvia nenhum dos outros turistas, estava sozinho entre colunas de arenito.
A terra havia girado em seu eterno circulo, e o sol, ainda forte e alto lançava agora sombras em outras direções, o vale parecia diferente, sinistro. Eu era para estar preocupado pensei, estou sozinho em algum lugar do vale dos reis, perdido de uma excursão que não sei ao certo que horas deve partir, mas eu não estava. Havia perdido minha bolsa, meu relógio e minha máquina fotográfica, mas isso não me importava. E se a noite caísse e eu não encontrasse o caminho de volta? Isso também não me assustava. Uma estranha força me mantinha ali, entre colunas, calmo, quieto. Corri os olhos pelas construções que me cercavam, as colunas repletas de hieróglifos desgastados pelas areias e pelo tempo me encheram os olhos, sim, de alguma forma eu podia decifra-los, compreender o que me transmitiam. Li então:
“As trevas cercam a luz eternamente
eternamente espera pela hora em que
ele atenderá seu chamado.
E então Seth virá montado em seu magnifico reptil S´lam er ria’m...”

E como por encanto as palavras outra vez se tornaram hieróglifos desgastados incompreensíveis, indecifráveis para um ocidental sem o mínimo de estudo em línguas antigas. Então o que havia sido aquilo? Uma visão? Minha mente ansiosa por encontrar o lugar que habitava meus sonhos? Os efeitos do astro sol o dia inteiro sobre minha cabeça? Seria a sede? Sim, eu também a sentia. Levei a mão ao cantil e bebi um breve gole para voltar a consciência e decidir o que fazer. O ser racional dentro de mim implorava que eu retornasse por onde tinha vindo, que procurasse as setas e indicações colocadas em algum lugar para turistas incautos como eu, que tivessem antes se aventurado por entre as ruínas. Porem, insurgiu em mim uma parte que eu sequer conhecia, que dizia que eu devia esquecer a excursão o guia e qualquer tipo de retorno ao mundo civilizado, que meu lugar era aquele ali.

“Que absurdo!” dizia meu lado racional: “Volte seu tolo, volte enquanto ainda há tempo, a noite começará a cair em breve e você vai ficar sozinho no meio do deserto. Não tem água o suficiente, nem comida alguma e muito menos roupas adequadas para suportar uma noite neste lugar, comece a gritar por socorro antes que seja tarde demais.”
Parecia uma decisão fácil mas outra vez o homem que eu desconhecia me mim aclamava em um pensamento sedutor: “Você pode gritar por socorro, todo fraco grita por socorro, pode voltar para o seu mundo como todos os outros voltam quando o passeio termina e voltar para o ocidente com um monte de fotografias deste vale, fotos que não dirão nada além do que todos vêem. No entanto você tem agora uma chance única de permanecer no vale por uma noite inteira, suportar as privações que a vida moderna oferece e finalmente encontrar o que você veio buscar, sim, ele está em algum lugar por aqui lhe esperando e é nas trevas que ele se revela, não sob a luz de Rá.”
Subi em uma rocha e disse então para o vale em voz alta, como quem procura uma autorização e não sabe para quem pedir, queria escutar o eco de minha própria voz para ter certeza de que não estava sonhando:

“Para que vim a este lugar senão para encontrar o templo de Seth? Eis que não sairei daqui até completar minha busca, se minha razão quiser pegar o ônibus de volta para Tebas que vá sozinha, tomei minha decisão, ficarei esta noite.”
Como resposta o eco trouxe uma suave brisa, desci da rocha e continue caminhando rumo a lugar nenhum esperando a noite e a revelação que somente ela podia trazer.
(continua)
By: Leandro Ferreira