Andei e andei por entre as ruínas, cruzei sítios arqueológicos há muito abandonados e por outros que tinham bandeiras que provavelmente demarcavam futuras escavações. Olhava para traz vez ou outra para estabelecer a distância que eu já havia percorrido desde o início de minha jornada e para minha surpresa havia caminhado bem mais do que eu imaginava. Via agora somente o topo da cabeça da esfinge de Queops milhas atras, como que vigiando minha retaguarda, as sombras sobre o vale se perpetuavam, o calor do dia cedia a uma brisa cada vez mais fresca que corria por entre as ruínas. O anoitecer vinha chegando e o que me traria?
Seguia pela trilha que eu mesmo havia determinado atravessando ruínas em direção a uma grande pirâmide que despontava no horizonte. Meus olhos atentos corriam pelos blocos milenares de arenito buscando por pistas de qualquer tipo que me indicassem a revelação a exemplo do que havia me ocorrido antes. Mas nada sobrenatural acontecerá, nenhum hieróglifo antigo se manifestará como anteriormente eu não decifrava nenhuma outra frase ou sequer palavra. Um cansaço repentino se abateu sobre minhas pernas, havia caminhado o dia inteiro e meu estômago começava a reclamar que não receberá nada para preenche-lo. Atravessei mais uma ruína e sentei-me um pouco para descansar e observar o por do sol, não é sempre que se tem uma oportunidade destas e eu não queria desperdiça-la.
Lá se ia o astro rei, chamado pelos egípcios de Rá, Osiris ou Amon. Lamentei ter perdido a camera fotográfica poderia tirar algumas fotos maravilhosas deste momento mas terei de me contentar de guarda-los na lembrança. O sol descendo em um dourado espetacular e desaparecendo sob as dunas do deserto o véu da noite logo cobriu o vale e algumas estrelas começaram a despontar.
“Levanta e continua procurando” disse para mim mesmo: “faça valer a pena essa empreitada”. Cheguei a uma ruína maior do que as outras, ou pelo menos mais conservada pelo tempo, comecei a contorna-la e para a minha surpresa do outro lado havia o que sobrará de uma avenida, um caminho livre de construções que se dirigia para uma grande pirâmide. Seria o meu caminho, ainda mais agora que a luz do dia se extinguia rapidamente e logo estaria tão escuro que eu não poderia mais contar com os meus olhos.
Percebi então que sem os meus olhos a busca seria inútil. Por todos os céus, como eu havia sido burro, eu não enxergo no escuro e também não tenho nenhuma lanterna ou tocha! Como vou fazer para encontrar o templo? O meu lado racional ria muito e repetia constantemente: “Eu disse para você voltar, mas você não me escuta”. E onde estava agora aquele pensamento sedutor que me trouxe até aqui? Não ouvia o som de sua voz dentro da minha cabeça, havia sido ludibriado por uma fantasia de aventura, como fui idiota. O que me restava agora era um medo crescente de passar a noite no escuro no meio do vale dos reis e ser atacado por algum bicho faminto. Precisava portanto aproveitar a penumbra que ainda havia para procurar um lugar para me esconder e passar a noite. Quando eu contar o estupidez que eu fiz vão rir de mim lá em casa o resto da vida.
Andei por mais alguns minutos procurando um lugar seguro, mas nenhum lugar parecia ser seguro naquele lugar abandonado. Meu coração acelerava a cada passo que eu dava e o medo crescia. O vento havia parado e um ar gélido agora cobria a antiga avenida por onde eu passava. Era possível agora ouvir sons antes imperceptíveis, talvez o fato de eu estar perdendo o sentido da visão para a escuridão da noite cada vez mais ameaçadora estar sendo compensado pelos meus ouvidos.
Sim, eu conseguia ouvir vários sons distintos e além de conseguir classifica-los em uma lista mental, calculava aproximadamente a distancia em que estavam ocorrendo. Ouvia com maior freqüência o ruído de ratos correndo por entre as ruínas, julgava serem ratos bastante grandes pelo barulho que faziam. Sua passagem vez ou outra deslocava alguns pequenos pedregulhos que retumbavam no interior das ruínas causando um ou outro pequeno eco. Escutava também o piar incessante de algumas corujas que certamente espreitavam as saborosas ratazanas que corriam ao redor.
Me sentia mais confiante depois de ter notado o considerável aumento de minha capacidade auditiva, a noite enfim havia coberto todo o vale e uma escuridão sem fim me cercava. Com as mão esticadas para frente do meu corpo eu tateava a noite e as trevas quase sólidas que me envolviam. Um passo de cada vez até que eu toque em alguma pedra ou parede. Minha última lembrança do que havia vislumbrado antes do sol se por me dizia que eu não deveria estar muito longe do final daquela avenida e portanto não deveria estar longe da pirâmide, talvez um quinhentos metros, não mais do que isso e se eu seguisse reto logo estaria colocando minhas mão nela.
A temperatura caíra depois que o sol se pôs, o suficiente para que agora eu lamentasse não ter trazido uma jaqueta mais grossa do que aquela que havia passado o dia amarrada em minha cintura e que agora me aquecia um pouco. Se eu sobrevivesse a isto, eu dizia para mim mesmo, sobreviveria em qualquer situação.
Um passo após o outro dentro da escuridão sem fim, é difícil calcular o tempo em situações como estas quando os minutos parecem horas. Presumo que deva ter se passado pelo menos uma hora sem que eu esbarrasse em coisa alguma além de algumas colunas de arenito das quais desviei cautelosamente. Significava então que haviam duas possibilidades, a primeira é que a avenida que eu seguia tivesse em algum ponto alguma ruína em seu centro que eu não havia enxergado durante o dia e a segunda e mais provável era que eu tivesse em algum momento naquela escuridão eterna perdido a direção da reta que eu deveria seguir para atingir a pirâmide e estivesse agora andando a esmo novamente por entre as ruínas do vale dos reis. Nenhuma das duas alternativas me agradava por completo e uma vez mais a sensação de pavor tomava conta do meu coração.
Cansado de caminhar e com os braços doendo por mante-los erguidos frente ao meu corpo resolvi sentar na areia e descansar um pouco. Continuava a ouvir os ruídos do vale e sua serenata sinistra de ecos na escuridão da noite. Respirei o ar frio e apoiando os cotovelos na areia olhei para o céu procurando por estrelas ou pela lua. Um bordado de lindas estrela pairava sobre minha cabeça, uma pena eu não conhecer astronomia para tentar me guiar por elas. Fiquei admirando as constelações enquanto pensava no que fazer.
(continua)
Leandro Ferreira
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